
O sofrimento mental é dolorosamente democrático e pode atingir a qualquer pessoa; não distingue idade, etnia, classe social ou localização geográfica. Os dois últimos aspectos, no entanto, serão determinantes para que a ajuda necessária a quem passa pela dor emocional possa chegar a tempo e evitar que a aflição individual se torne estatística.
De acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), no ano passado, houve 9.895 casos registrados de violência autoprovocada na Bahia, que incluem automutilação e suicídio. Entre janeiro e agosto de 2026, já foram contabilizadas 540 mortes por suicídio e 5.273 notificações de violência autoinfligida para o estado no sistema do Ministério da Saúde.
Os dados foram fornecidos pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Mas, para além das referências oficiais, os números podem ser ainda maiores, pois os casos de automutilação podem estar subnotificados.
Em geral, quanto menor é a cidade, menor é a estrutura pública para oferecer suporte desta natureza aos cidadãos. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece à população atendimento gratuito através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). O cuidado acontece em unidades de saúde de diferentes níveis, desde os postos de bairro até hospitais especializados.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são os principais pontos de atendimento da rede. Eles oferecem assistência multidisciplinar, com psicólogos e psiquiatras. No entanto, apenas cerca de metade dos 417 municípios da Bahia podem contar com as unidades especializadas. No estado, as cidades menores, geralmente abaixo de 20 mil habitantes, não têm um CAPS fixo próprio.
Contudo, seria um engano pensar que em localidades do interior a incidência do sofrimento mental seria menos frequente, apenas por conta de um ritmo de vida menos acelerado que nos grandes centros. Dificuldades pessoais, isolamento geográfico, desemprego e escassez de atividades culturais são alguns dos fatores que acabam trazendo forte impacto psíquico.
Duas cidades baianas, Paulo Afonso e Jequié, trazem uma série histórica alarmante, com os maiores índices proporcionais de mortes por suicídio e autolesão. Em Paulo Afonso, localizada ao norte do estado, na região do Rio São Francisco, a taxa proporcional atingiu uma média de 12 casos a cada 100 mil habitantes. No ano de 2019, a cidade, com 117.782 habitantes, chegou a registrar 14 mortes autoinfligidas.
A média do município ficou 12 vezes maior que a de Salvador e também muito acima da média nacional. Embora a capital tenha números absolutos maiores, é ultrapassada quando se faz a relação de ocorrências e população local. A cidade de Jequié, na região Sudoeste da Bahia, ocupa o segundo lugar do ranking estadual, com uma proporção que ficou em 6,2 casos a cada 100 mil habitantes.
Nos municípios menores, sobretudo nas comunidades rurais, que não têm uma estrutura pública própria especializada em saúde mental, o principal canal para a identificação dos problemas da população e encaminhamento para tratamento é exercido pelos agentes comunitários de saúde. E esse é um trabalho com inúmeros desafios.
Através das visitas domiciliares, os profissionais tentam reconhecer os sinais de depressão ou outros transtornos mentais. Porém, muitas vezes, a própria pessoa ou a família tentar esconder o problema.
"O primeiro obstáculo, muitas vezes, é a omissão da própria família, que tenta esconder que tem alguém com transtorno. A gente tem muito isso de ver que a família ainda tem essa questão de não dizer que aquele indivíduo tem problemas, nega, esconde, até o momento em que essa pessoa tem um surto. Só aí é que vem a solicitação de mais ajuda", relatou Lázaro Figueiredo dos Santos, coordenador de políticas sociais do Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde da Bahia (Sindacs).
De acordo com o agente de saúde, os profissionais recebem capacitação para lidar em situações que envolvem questões de saúde mental, através de curso oferecido pelo Ministério da Saúde. No entanto, a falta de recursos da própria rede do SUS se torna um gargalo para que o indivíduo em sofrimento possa receber a atenção necessária.
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